Logo que deixamos Vigo, por exemplo, pegamos uma grande tempestade e ventos fortíssimos. Foi quando decidimos tirar o pé do acelerador, sentir a situação e, principalmente, o comportamento do Brasil 1. Decidimos facilitar para o barco. Foi a decisão mais acertada. Afinal, três concorrentes tiveram avarias e foram buscar ajuda em Portugal. Dois acabaram desistindo da primeira perna, tamanha a complicação.
Decidimos arriscar em nossas rotas, buscando os caminhos mais curtos. Conseguimos êxito ao liderar a competição por alguns dias. Como disse a navegadora Adrienne Cahalan, éramos os 'outsiders' (azarões), que incomodaram os favoritos.
Entre as lições que tivemos foi passar pelos temíveis Doldrums, a zona de calmaria equatorial, com ventos de 12 nós. Ou seja, não houve calmaria nenhuma. Velejamos por lá como se estivéssemos em qualquer outro lugar, sem a pesada fama desta região.
Tivemos momentos de muito alegria e recompensa a bordo. É muito bom pegar o mar lisinho, surfar as ondas e ver a velocidade que o Brasil 1 pode chegar. A adrenalina, a emoção e o prazer são indescritíveis quando se está no convés. No interior do barco, porém, é uma tortura. É como se estivéssemos numa montanha-russa sem fim.
Batemos o nosso recorde no domingo, dia 27, quando pegamos ventos de quase 30 nós. Completamos 484 milhas náuticas, ou cerca de 896 quilômetros, em 24 horas. Marca fantástica, quase inimaginável há pouco tempo.
A boa média de velocidade nos deu a sensação de que chegaríamos rapidamente à África do Sul. E, justamente no último dia, quando esperávamos velejar "tranqüilamente" no contravento, pegamos uma calmaria inesperada. Precisamos de seis intermináveis horas para completar 20 milhas, ou cerca de 37 km. Isso só aumentou a nossa ansiedade de fechar as mais de 6.400 milhas e de comemorar o terceiro lugar na etapa e a belíssima vice-liderança na classificação geral em terra firme na Cidade do Cabo.
As lições do Atlântico foram importantes. Conhecemos muito melhor o Brasil 1 agora e, certamente, estaremos preparados para as próximas etapas da Volvo Ocean Race. Já sabemos o que fazer para render o esperado.
Equipe Brasil 1
Rajadas
- Exclusivo: Depois de uma apuração rigorosa no porto da Cidade do Cabo, que envolveu um famoso detetive sul-africano, o Brasil 1 descobriu a identidade do "rato" que acabou com o estoque de chocolate do barco na travessia atlântica: trata-se do medalha de bronze na classe Tornado, ao lado de Lars Grael, em Atlanta (96), Kiko Pellicano. Os responsáveis pela investigação estudam, agora, qual será a punição para o novo chocólatra da tripulação.
- Churrasco: depois de muita negociação, que envolveu até o Corpo de Bombeiros da Cidade do Cabo, a equipe de terra do Brasil conseguiu autorização para montar a churrasqueira ao lado da sua base africana. Isto garantiu a festa na chegada do barco. O mestre-cuca Marcelo Ferreira cuidou da carne, enquanto todos batalharam a cerveja mais gelada. Tudo para comemorar a manutenção do segundo lugar na regata.
