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31 de março de 2006

Testemunha ocular

Quando um furacão destruiu parte do distrito industrial de Indaiatuba e quase acabou com o mais moderno barco já construído no Brasil, ele estava lá. Quando uma baleia distraída trombou contra a quilha do Brasil 1, ele também estava lá. Quando uma rachadura apareceu no convés do veleiro e deixou todos os tripulantes temerosos, foi ele que descobriu o problema. Quando o mastro do Brasil 1 quebrou a centenas de milhas de terra firme, adivinhe? Ele, mais uma vez, foi testemunha. O que mais? Bom, inclua na lista encontrar a cabine inundada de óleo, ventos de 63 nós, uma perigosa atravessada e recorde de velocidade de 41 nós.

Kiko Pellicano, medalhista olímpico e um dos mais experientes brasileiros a bordo do veleiro azul e amarelo, foi o único velejador a testemunhar os eventos mais importantes do time. Foi ele, por exemplo, que descobriu a rachadura no convés no segundo dia da segunda etapa, o primeiro grande problema enfrentado pelo time, ou o vazamento de óleo na regata local de Melbourne, que custou a vitória aos brasileiros. Ele, também, estava no convés quando o time passou pelo Cabo Horn e quando o Brasil 1 chegou ao seu recorde de velocidade, 41 nós em uma descida de onda, no caminho até o extremo Sul da América.

Kiko, porém, é a testemunha ocular do Brasil 1 por acaso. “Eu e o Joca (Signorini) estávamos no convés em todos os fatos marcantes do Brasil 1. Quando batemos na baleia, quando encontramos o problema no convés, quando o mastro quebrou. Mas também éramos nós que estávamos lá quando superamos ventos de 63 nós ou quando chegamos aos 41 nós”. Sorte ou azar? “Acho que é sorte ter passado tudo isso e visto todos esses problemas de perto. É melhor presenciar todas essas coisas no convés, vendo tudo o que está rolando, do que estar dentro do barco e só ouvir as histórias depois”.

Seu companheiro de aventuras, o timoneiro Joca Signorini, até brincou com o fato. Ele estava ao lado de Kiko em quase todos os eventos. A exceção? Na trombada com a baleia, Joca tinha acabado de descer ao interior do barco, foi arremessado contra a cozinha e quebrou três costelas. “Perto do primeiro portão de gelo da última etapa, enfrentamos ventos de 63 nós e demos uma atravessada. Eu olhei para o Joca, ele olhou pra mim e disse: ‘Você de novo!’”.

Mesmo sendo um dos mais tímidos da tripulação, Kiko é um bom contador de histórias. A mais engraçada envolve o norueguês Knut Frostad e Horacio Carabelli. “Estávamos no meio do oceano e vimos um ponto brilhante. Ficamos duas horas discutindo se era um barco pesqueiro ou uma estrela nascendo. Depois de falar muito, o Knut virou e disse, com autoridade, que era uma estrela. Foi aí que o Horácio, com cara de sério, falou: ‘Tudo bem. Pode até ser uma estrela. Mas que ela estava pescando, estava’. Todo mundo caiu na gargalhada. Até hoje, sempre que a gente vê uma estrela no meio de uma etapa, diz que é uma estrela pescadora”, diz, em meio a gargalhadas.

Rajadas

Mal tropical – Os trópicos fizeram mal para muita gente no Rio de Janeiro. Dois tripulantes do Brasil 1 foram atacados pelo mal tropical, nome que a virose ou gripe que assolou a Marina da Glória acabou conhecida. O navegador Marcel van Triest ficou de cama quatro dias, não disputou a regata local e não velejou nenhuma vez na semana que antecedeu a largada. O outro foi Marcelo Ferreira, que também ficou de cama, em Niterói. Tripulantes do ABN 2 e movistar, membros da organização européia e alguns jornalistas também ficaram de “molho”.

Comida – Enquanto todas as outras tripulações enchiam as despensas com comida desidratada, o Brasil 1 contrariou a regra e vai incluir macarrão comum e atum no cardápio. A cada saco de macarrão embalado, o coordenador de velas Stu Wilson levantava a mão e gritava: “Ei, olha aqui! Comida de verdade!”, brincando com as outras equipes.

Sucesso de público – A edição 2005-2006 da Volvo Ocean Race foi um sucesso de público no Rio de Janeiro. Até domingo, cerca de 170 mil pessoas visitaram a Vila da Regata, montada na Marina da Glória. A regata local do sábado, dia 25, foi assistida por cerca de 70 mil pessoas, sem contar o grande público que viu a largada, no domingo, pois os barcos percorreram a orla inteira de Copacabana antes de partir para mar aberto. Nunca a vela foi tão vista e teve tanta presença nos meios de comunicação.

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